terça-feira, 1 de dezembro de 2015

[NOVIDADES] LEIA UM TRECHO DE "OLHOS DE LOBO", DE HELENA GOMES E ROSANA RIOS

A Editora Farol Literário divulgou um trecho de "Olhos de Lobo", sequência de "Sangue de Lobo", das autoras Helena Gomes e Rosana Rios.

Serão cinco trechos divulgados, sendo um por semana. Estaremos atualizando o post conforme os outros trechos forem revelados.

Vale lembrar que no ano passado a editora lançou gratuitamente "Lobos", um conto ambientado no universo da história de "Sangue de Lobo". Clique aqui para ler.

Confira o trecho divulgado:
         "Foi ao contornar uma árvore, repleta de folhas alaranjadas, que viu as luzes.

         Algo brilhava em meio à neblina e ela deu meia-volta, na esperança de que fosse Dortchen, quem sabe retornando da Garten com uma lamparina.

     A garota ficou paralisada. Não era uma luz, eram duas... e brilhavam em um tom avermelhado, sobrenatural. Sumiam e apareciam, como se piscassem.

         Olhos!

         Ouviu um grunhido, o som de folhas sendo pisadas. E uma respiração animal.

         Lotte sentiu tontura; a neblina agora era espessa e ela não distinguia mais a cidade, apenas a névoa branca e mil folhas douradas ao seu redor. Olhou para o céu onde a Lua já brilhava.

         ‘Lua Cheia’, lembrou, com um estremecimento de terror.

         Disparou a correr às cegas, na direção que esperava ser a da cidade velha.

         ‘Posso cair no rio se for para o lado errado’, pensou, parando entre a massa de ar úmido.

         Escutou passos sobre folhas secas atrás de si e tratou de retomar a corrida, com um soluço de medo. Alguém a seguia; se olhasse para trás, veria a criatura dos olhos brilhantes.

        Ao sentir as pedras do calçamento sob os pés, diminuiu o ritmo: estava na cidade. Viu janelas fracamente iluminadas e beirais de telhados, porém não havia viva alma ali, nem mesmo os temidos soldados da guarda francesa: a neblina cobria tudo, fazendo seus olhos lacrimejarem.

          E os passos atrás dela ainda soavam, também pisando as pedras irregulares do chão."
         - Boa tarde, Frau Hundmann - disse o jovem anfitrião, formal. - Se estiver disposta, nós gostaríamos de ouvir a história que mencionou ontem. Especialmente este meu amigo; ele e o irmão têm registrado muitos contos do nosso povo.

         A mulher cravou os olhos em Wilhelm. Com 24 anos, ele era o mais velho dos hóspedes de August Von Haxthausen naquele fim de semana; apesar disso, parecia intimidado.

         - Como se chama, jungling? - perguntou ela, num sorriso sem alegria, ao baixar o bordado e ajeitar sobre a cabeça um estranho capuz de veludo vermelho.

         - Wilhelm Grimm, meine Frau.

         - Pois então, Herr Grimm, ouça minha história: é inteiramente verdadeira. Es war einmal, era uma vez - sua voz ecoou na sala silenciosa - uma senhora que vivia em uma casa junto à mata, sob três grandes carvalhos...

         Apesar de ela aparentemente fitar seu primo, Erich teve a impressão de que seus olhos, que emitiam um brilho esquisito, não o largaram mais.

         "Estou imaginando coisas", pensou o rapaz. Talvez aquilo fosse apenas um reflexo fugidio do sol que brilhava lá fora, intrometendo-se por alguma brecha da janela.

          Ou não...
         - Eu juro que vi! - dizia um menino.

         - Conta de novo, para os investigadores, o que você acha que viu - incentivou o soldado.

         A mulher se meteu:

         - Meu filho está dizendo bobagens, essas crianças têm imaginação demais.

     - Não se preocupe, senhora, agradecemos qualquer informação - a agente tranquilizou-a. - Nunca se sabe o que pode ajudar numa investigação. Fale sem medo. O que você viu?

         E a moça sentiu o coração gelar quando o garoto começou a falar.

         - Um lobo. Eu juro, eu vi um lobo!

         Rodrigo sorriu com desdém e a mãe bufou, mas Natália o encarou com seriedade.

         - Certo. E onde estava esse lobo?

        - Bem aqui, perto da guia. A gente mora naquele prédio. Eu levantei de madrugada pra beber água. Era mais de meia-noite e nem sei por que olhei pela janela da sala, mas olhei, e dava pra enxergar bem. O lobo veio andando debaixo da lâmpada da rua.

         - De onde ele veio? - a investigadora indagou.

        - De lá - o adolescente indicou a Rua Mauá, que margeava o cais. - Nunca vi um bicho tão grande na minha vida! Aí ele parou perto da moça caída, ficou lá um tempo. Eu queria ir chamar a mãe... só que não tive coragem de parar de olhar. Então, ele uivou.
         Um uivo. Podia jurar que ouvira um uivo.

      Foi seguindo o eco do som pelas ruas desertas até que viu dois olhos brilharem nos escombros de um pub destruído. Farejou o ar. Não possuía os sentidos aguçados do lobo na lua crescente, mas seus instintos encontravam-se em alerta e ele tinha certeza de que não estava diante de um cão, muito menos de um lobo comum. Mas... poderia ser um lobisomem, sem o estímulo do luar?

       Sim. O cheiro de um licantropo era inconfundível. Era seu próprio odor, quando a Lua o escravizava.

        Andou na direção do animal enquanto pegava a arma no bolso do casaco. E viu...
        Viu a criatura erguer-se sobre dois pés, mal iluminada pelo reflexo do crescente nas nuvens.

        - William? - conseguiu dizer, erguendo o revólver que carregara com balas de prata.

        O animal, que agora era um homem, estava nu, andava sobre a neve e não parecia sentir frio. Voltou os olhos brilhantes para o recém-chegado e o fitou como se o reconhecesse.

        - Hector - murmurou, com um sorriso que transmitia ferocidade.
         Hector levantou-se, tateando ao redor.
       Acordara em um quintal tomado pelo mato, protegido pela sombra de um muro. Diante dele, a tênue claridade da aurora revelava um casarão antigo e abandonado, daqueles caindo aos pedaços que bravamente resistem contra a ação do tempo.
         Conhecia o casarão. Localizava-se numa rua paralela à de seu prédio.
       Mas... como podia estar em São Paulo se na noite anterior participara do lançamento de um livro seu em Curitiba?
         "Eu não poderia ter chegado aqui tão depressa. A não ser..."
         O desespero cresceu em seu peito, o raciocínio mostrou-lhe o óbvio e Hector resistiu em acreditar.
         "Não sou mais um lobisomem... Não mesmo! Eu... eu me curei!"
         Porém estava ali, sem roupas, óculos, carteira, celular. Exausto e abatido.
         Forçou a memória e as lembranças vieram...

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